• Só os fumantes podem entender ...

Delírios da Abstinência

Atualizado: Fev 5

por Ana Boucinhas


Pessoas normais tornam-se firmemente convictas de que o cigarro faz super mal e decidem parar de fumar singelamente. Já pessoas com parafusos a menos como eu, resolvem parar de fumar só se for por livre e espontânea coação. Verdade que me sentia culpada por fumar tanto. Tanto que levava uns papos com Deus e pedia para proteger meus pulmões, pois eu era tão boazinha e de errado só fumava… Mas Ele não caiu na minha ladainha e pintou um enfisema que segundo meu super médico, vai complicar o momento da minha partida, caso não pare AGORA.


Só fumantes “invertebradas” como eu, conseguem calcular o quanto é insuportável viver sem a praga do bastonete nicotínico.


A tal da abstinência me pegou pesado e meu inerente bom humor foi para as cucuias.

Quando amigos carinhosamente ressaltam as benesses de parar de fumar, disfarço bem, mas tenho vontade de pular na jugular deles. Sei que o ódio ao meu médico vai passar, mas não caiu ainda a ficha e acho que ele não passa de um implicante e não merece me ter como paciente.

Pele bonita que se dane. Eu lá tenho idade para ter uma pele macia ?? Nem vou conseguir ver a diferença, pois a estas alturas não enxergo mais direito. Hei de valorizar um dia, as maravilhas de um olfato e um paladar apurado, dizem todos. Mas neste começo estou é me dando conta que muita coisa que gostava, passei a odiar. Uma picanha fatiada por exemplo me levava aos céus. Com a boca na versão virgem, me indago como conseguia gostar de carne ??? Se não passar esta neura, vou virar vegana, juro.

OK… Há de chegar o dia em que vou descobrir um agradável cheiro desconhecido que estava escondido entre as baforadas dos meus cigarros. Pode até ser que seja bom. Mas no momento, até minhas narinas estão de mal com a vida. Só captam odores que nem sentia serem tão desagradáveis quando me cercava de fumaça.


É óbvio que descobri um espaço FA (Fumantes Anônimos ) e lá vou eu semanalmente aplaudir ou vaiar os que estão na mesma situação.Copio algumas técnicas usadas por pessoas do grupo que estão mais adiantados na luta. Adorei a ideia de cortar a cenoura no formato de um cigarro para enganar a mente diante da saudade da parte mecânica do vício. Nunca comi tanta cenoura na minha vida, pois minha mente é esperta e por não ter caído na rede, desando a mastigar as tiras que coloco numa cigarreira improvisada. Ritual é ritual, afinal de contas. Ainda bem que o isqueiro não compõe o rito.


É claro que também sou medicada com remédios específicos para ajudar a parar de fumar. A recomendação que obedeço é tomar dois comprimidos por dia. Mas a vontade é tomar um a cada 10 minutos. No pacote antitabagismo os adesivos não podem faltar. A vontade também é de cobrir o corpo todo com eles, pois a nicotina entra pelos poros em doses homeopáticas. Para se igualar a 30 cigarros /dia, não deveria ter espaço entre um e outro. Mas tudo bem, pois dá uma irritação danada.

Quem nunca fumou, caso leia este relato delirante, vai ter certeza de que no meu cérebro não há nenhum parafuso. Os que tiveram que parar, vão se identificar e lembrar sem a menor saudade do sacrifício que fizeram até se livrarem definitivamente do tal tabaco. Hei de chegar lá também… “Odeio cigarro, odeio cigarro, odeio cigarro”…

Até lá vou evitando o único problema que a falta de cigarro traz – subir de peso. Só faltava fazer um tremendo sacrifício e ter como premio de consolação 10 quilos a mais.

Vou me entupindo de tudo o que não tiver açúcar. Cada bala ruim que descobri… ou será implicância do meu paladar também ? Sei lá, só sei que “odeio cigarro, odeio cigarro, odeio cigarro”…


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